Imagina viver numa época em que filmes era visto como algo da "plebe" (sendo inclusive preferível fazer teatro), sendo apenas filmagens aleatórias e mudas cuja trilha sonora era feita na hora pela orquestra. Agora imagina que, de repente, o cinema passa não só a ter valor como indústria, como, do mais absoluto nada, os filmes passaram a ser falados, isto é, com diálogos de verdade!
Inúmeras carreiras acabaram da noite pro dia por não conseguirem se adaptar. Um cara, porém, resistiu até o último minuto, um tal de Charlie Chaplin, também conhecido como o ícone do cinema (mudo) até então. Ele sabia que os talkies vinham pra ficar, mas o personagem dele pertencia ao mundo mudo, então vejam vocês, o cara fez um filme zoando/criticando a modernização usando tecnologia antiga mas sendo claramente moderno, ou seja: sim, o filme era parcialmente falado, apesar da orquestra gravada no fundo.
Essa foi a despedida de Chaplin como conhecemos do cinema, ainda em 1936, mas que poderia muito bem ser lançado atualmente, ainda que com roteiro adaptado, que faria sucesso por um simples motivo: o personagem dele não funciona fora do cinema mudo. Isso, porém, não o impede de gravar em alta definição, usar IA ou qualquer incrementos do gênero, contanto que fosse bem encaixado no roteiro, como a cena que ele canta algo que ninguém entende.
Tipo, o personagem dele pode estar em, literalmente, QUALQUER situação que, se bem escrito (isto é, agregar em algo), o pessoal veria. Imagina, do nada, encontrar um cara cujo apelido é, literalmente, "VAGABUNDO" trampando numa fábrica, sendo preso por participar de protestos trabalhistas, cheirando cocaína e... parecem pautas bem atuais, não? É como se o viniccius13, que faz a mesma série há anos e continua tendo bastante audiência, a cada episódio conseguisse furar a bolha mesmo sabendo que Minecraft já deixou de ser hype. A diferença é que o Chaplin, nos últimos anos, fazia um filme a cada século e em todos foi brilhante (a saber, Em Busca do Ouro, Luzes da Cidade e Tempos Modernos).
Não me é difícil imaginar essa despedida do Chaplin numa época em que a inteligência artificial estivesse a todo vapor, literalmente. Só não confunda: fazer os filmes dele qualquer um faz, mas não seria o Chaplin.
Comentários
Postar um comentário